html> SUPLEMENTO CULTURAL
 

 

 
 
UM MERGULHO NO PASSADO PAULISTANO -
COM ESTILO
 
Quem poderia ocupar-se do tema Belle Époque no Brasil, e mais ainda, de todo uma efervescência cultural que dominou especialmente a intelectualidade paulistana e envolveu nomes do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Um salão onde nomes como Tarsila do Amaral trafegava com a mesma celeridade do maestro Francisco Mignone e cujo afrancesamento óbvio era criticado por Monteiro Lobato mas, mecenava figuras como Oswald de Andrade,Mario de Andrade e José Oiticica. Esse perfume de várias e requintadas essências como as do “Ao Trevo Sideral”, alimentavam as delícias de gourmets que se davam ao luxo de imprimirem seus cardápios em francês, mandarem cartões em espanhol e cantarem um hino a cada encontro e que declarava em bom toar, sob a batuta do “jefe” “E, é seguro, heis de vencer,/Arme os braços o IDEAL!/Vinde à arena combater,/Cavalheiros da Kyrial!”.

Se tudo isso ou nada disso o convencer a conhecer a “Villa Kyrial - Crônica da Belle Époque paulistana” de Márcia Camargos pouco sei como provocar mergulhos em tempos obscuros e pouco conhecidos na inteligência brasileira. É a autora que nos explica de como surgiu a idéia de produzir esse livro, editado pela SENAC-São Paulo, e que tem com suporte de pesquisa o trabalho competente e reconhecido da Companhia da Memória.

“A idéia de pesquisar este tema surgiu há muitos anos, quando um livro de Aracy Amaral chamou minha atenção para aquele importante ponto de encontro da cidade no início do século XX. Constatei que não havia textos de maior fôlego dedicados à Villa Kyrial, apenas referências esporádicas, e raras eram as pesquisas sobre o período em que ela se insere – a chamada Belle Époque paulistana. Tinha diante de mim um assunto interessantíssimo, e uma lacuna historiográfica que merecia ser preenchida. Como era próxima da família Freitas Valle fui, aos poucos, obtendo documentos e tomando depoimento de pessoas que conviveram com o senador-mecenas. Com um material riquíssimo e inédito em mãos, entre cartas, fotografias, impressos e uma grande quantidade de papéis produzidos pelo cotidiano da Villa Kyrial, achei que deveria, de alguma forma, divulgar e levar ao conhecimento do público a história deste personagem incrível e do seu eclético salão. Mas, para melhor explorá-la, para entender as relações de poder e estabelecer alguns critérios de análise, acabei fazendo um curso de pós-graduação em História Social na USP, onde pude aprofundar meus conhecimentos e ampliar a pesquisa. Defendi minha tese de doutorado sobre a Villa Kyrial, em 1999. Passei então um ano revisando e lapidando o texto para torná-lo o mais agradável possível e selecionando o material a ser publicado nesta obra que procura fundir biografia, discussão literária e retrato de época.”Explica a autora.

Mas o que era A Villa Kiryal e quem era esse fantástico mecenas? Se fosse clássica e simples a resposta não estaríamos falando sobre uma tese, mas mesmo assim, sendo pouco estiloso vamos às referências básicas. Para retratar a Belle Époque no Brasil, uma sociedade espelhada na França, mais especificamente em São Paulo, Márcia Camargos tomou como referência a Villa Kyrial, amplo palacete com jardins, situada na rua Domingos de Moraes, no Bairro da Vila Mariana, muito próximo ao que hoje é a Av. Paulista, centro financeiro de São Paulo. A propriedade que à época era considerada uma chácara foi adquirida em 1904 pelo senador José de Feitas Valle, homem da situação com grande trânsito pelo governo federal. Em seus salões, fartamente decorados,próprio ao estilo, funcionou o que podemos chamar de centro cultural freqüentado por luminares e endinheirados que acreditavam , naquele oásis estarem promovendo a civilização daquela poeirenta e promissora província. Esse bastião civilizatório só veio ao chão graças ao logro da expansão imobiliária em 1961. Por terra a edificação, ficou para a história a iconografia, bela e rebuscada de que se valeu a autora para recontar a história.

Perguntamos a Márcia Camargos, como na hora de produzir uma obra metódica, porém rica de pormenores, se comporta uma jornalista que é historiadora. “Ambas fazem-se presentes, numa simbiose que, até o momento, tem sido bastante rica. De posse de ferramentas conceituais e instrumental teórico, a historiadora colabora no sentido de desvendar os mecanismos por detrás dos fatos e interpretar os acontecimentos dentro do seu contexto. Já a jornalista, além de emprestar agilidade na apuração dos dados e rapidez no raciocínio, imprescindíveis no dia-a-dia de qualquer profissional de imprensa, ajuda a amenizar a linguagem empoada típica dos trabalhos acadêmicos, tornando os textos mais leves e saborosos. No mais, as duas são militantes curiosas por vício do ofício que mescla jornalismo investigativo com pesquisa histórica.”

A vida em Villa Kyrial é tão efervescente, como já dissemos, que borbulha em inquietante champagne e acepipes para diversos gostos. Por exemplo: José Oiticica citado no número anterior sob a influência dos espanhóis no movimento anarquista era um apreciador de Jacques D’Avray e freqüentador dos ciclos de palestras. Filólogo e lingüista que chegou a lecionar na Universidade de Hamburgo (Alemanha), um mês antes de liderar no Rio de Janeiro a insurreição (palavras da autora), de quatro mil operários remete a D’Avray, leia-se o perrepista Freitas Valle, uma extensa carta e transcrevendo do livro :”Lamentando não ter recebido da natureza a bossa missivista, dividindo com o velho Cícero o horror à correspondência, na primeira página de uma série de dez, ele se reporta ao amigo comum Coelho Neto, que lhe enviara os Tragipoemas de Valle. Prossegue atacando uma parcela da crítica nacional que, diz, só aceitava a poesia inteligível a todos, fosse ao estilo da trova popular, dos folhetins romanescos ou das narrações tipo I-Jucapirama ou Fugindo do cativeiro”.

Oiticica não era avesso às missivas e tertúlias. Anarquista de fato liberava o lado do intelectual instalado em São Paulo de ter um pólo para seus “arroubos” como queriam os puristas de modernidade ou, melhor dizendo “não-modernidade”. O “muderno”(sic) de hoje é muito parecido com o “não-moderno” de ontem. A Semana de 22 foi ofuscador maior do processo que se desenvolveu na vila envolvida pelas musas das artes da vila francamente senhorial.

Outro pólo de interesse nessa pesquisa é a relação de Alphonsus de Guimarães com Freitas Valle. O poeta mineiro chamou-o de Prince Royal du symble et grand poète inconnu em seu Câmara Ardente. E tem mais... Enrico Caruso que em seu tour freqüentou Villa fez sua caricatura. A caricatura de um poeta afrancesado, senador do Partido Republicano Paulista feita por um tenor e não caricaturista...surpreendente e extasiante.

Resenhar é um ofício delicado e verdadeiramente pessoal e interpretativo, por isso mesmo deixamos (que pretensão) que autora falasse sobre o livro, em uma entrevista que muito bem caberia a São Paulo d’antanho mas que dificilmente seria festejada aos tour de force do Mâitre Jean Jean. Continuando, perguntamos a Márcia Camargos quais foram as maiores dificuldades na condução da pesquisa: “Por incrível que pareça, e apesar de existirem pouquíssimos estudos sobre esta fase da vida cultural paulistana e brasileira, ofuscada como foi pela eficientíssima máquina propagandística do movimento modernista, minha maior dificuldade consistiu em decidir que rumo tomar, que atalho escolher, que partes descartar. Como tive acesso privilegiado ao arquivo Freitas Valle, totalmente inexplorado e muito rico, não foi fácil deixar de lado alguns documentos, optar por um caminho em detrimento de outros, igualmente interessantes. Ao fim e ao cabo, utilizei de verdade apenas um décimo de todo o material pesquisado. É claro que a gente gostaria de esgotar o assunto, espremer até a última informação, vasculhar cada pista, revelar o mais ínfimo dos detalhes. Mas, para viabilizar uma tese e um livro, há que se cortar muita coisa boa, e esta é a parte mais dolorosa do processo.

Doloroso ou não, com história de perfumistas, escultores, músicos geniais e até com registro discutido por modernistas, testemunhas ou não da inserção da Kyrial ao movimento de 22. Uma foto registra sorridentes, na escadaria do terraço da Villa os protagonistas da Semana dias após o evento. A foto foi legendada como “Invasão Futurista na Villa Kyrial”.

O resgate histórico sempre foi defendido por todos, mas pouco de prático vinha sendo feito.O trabalho de Márcia Camargos e da Companhia da Memória é de grande importância e vem apoiando-se no sistema de parcerias com a iniciativa privada. “Há mais de 15 anos temos trabalhado com o resgate da memória brasileira. Fomos pioneiros neste tipo de pesquisa histórica fora da academia. Vasculhamos arquivos e conversamos com pessoas para escrever livros e realizar exposições, entre outros produtos culturais. É um filão muito fecundo... um campo em que, em nosso país, quase tudo ainda está por ser feito. As pessoas em geral e as empresas em particular têm se conscientizado, cada vez mais, da importância da preservação da memória. Como os mecenas do tipo de Freitas Valle não existem mais, este papel vem sendo desempenhado pela iniciativa privada. No nosso caso, estas parcerias são fundamentais, e possibilitam uma autonomia de vôo que não teríamos sem tal apoio. Felizmente, as empresas têm compreendido sua função social e, por meio de leis de incentivo à cultura, patrocinam e viabilizam muitos projetos nesta área.”
 
por Eduardo Cruz, paulistano e jornalista

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