POETA É ALGO
QUE MORRE MUITO
MELHOR MORRER DE VODKA
DO QUE DE TÉDIO
"Foi truculento, odiando a truculência
ficou
sem voz, nas horas de discurso
Gastou-se em aparência
Disfarçando o urso."
Jorge
Wanderley, in Coração à Parte
"E logo vai
amanhecer
Os trabalhadores vão se levantar
e vão procurar por mim no estaleiro
e dirão:
'ele tá bêbado de novo' "
boemia,
algumas inclusive já contadas nesse
Suplemento.Uma história que se reveste do
manto da especulação, maledicência ou até
faz jus à mítica dos poetas românticos, é
que Castro Alves em sua incursão pelo Braz,
onde em um salto sobre uma vala
desequilibra-se e dá um tiro no pé é
incorreta e foi criada pelos amigos, para
amainar um possível escândalo. Diz-se que,
desgostoso com as relações com Eugênia
Câmara, redirige suas energias para uma
paulista de família burguesa. A mulher, por
armadilha do destino, é casada com um
comerciante português dono de uma chácara
extensa que beirava até a famosa chácara do
Tatuapé.O dito português flagra Castro Alves
em sua propriedade. O poeta foge, mas, à
beira de um riacho, acaba por levar um
tirombaço no pé.O ferimento infecciona, pois
a região possuía muitas charnecas pelas
quais Alves precisa arrastar-se em busca de
socorro. A tal chácara da Bresser existiu,
assim como o riacho que desde o início do
século está canalizado.A charneca está sobre
metros de aterro, asfalto e concreto. Até os
trilhos do Metrô correm sobre ela...Mas que São Paulo era essa que o poeta freqüentava? Em carta ao Dr. Augusto Guimarães, de abril de 1868, dizia "Eis-me em São Paulo, na terra de Álvares de Azevedo, na bela cidade das névoas e das mantilhas, no solo que casa Heidelberg com a Andaluzia... Aqui há frio, porém frio da Sibéria; casas de Tebas; ruas, mas ruas de Cartago... casas que parecem feitas antes do mundo de tanto que são pretas, desertas, mas que parecem feitas depois do mundo de tanto que são desertas (...) escrevo-te, à noite. Faz frio de morte. Embalde estou embuçado no capote e esganado no cachenê". Existem outras versões deste texto, porém, todas concordam que sua conclusão era a mesma: "inclino-me a preferir São Paulo ao Recife."
1831, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 25
de abril de 1852. Em 1848 matriculou-se na
Faculdade de Direito
de São Paulo, onde foi
estudante aplicado e de cuja intensa vida
literária participou ativamente, tendo
fundado a
Revista Mensal da Sociedade Ensaio
Filosófico Paulistano. Entre seus
contemporâneos, encontravam-se José
Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e
Bernardo Guimarães estes dois últimos suas
maiores amizades em São Paulo, com os quais
constituiu uma república de estudantes na
Chácara dos Ingleses, era ali que nasceria
grande parte de sua obra poética. O meio
literário estava encharcado de byronianismo,
e teria fornecido a Álvares de Azevedo
componentes de melancolia, sobretudo a
previsão da morte, que parece tê-lo
acompanhado a vida toda.
Eu
passava na vida errante e vagoComo o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago,
Desgraças à parte, nossos poetas românticos e boêmios eram dados a morrer de tuberculose, doença essa que grassava nas rodas da extravagância. Mas outros optaram por vias menos naturais e mataram-se. Em todos os tempos e todos os países isso vinha acontecendo, que o diga Goethe quando criou o seu jovem Werther. Que o diga os novos poetas (os neo-byronianos) góticos e outros tantos, em todas as épocas de nossa lira literária.
O escritor J.Toledo teve a ousadia de preparar o seu "Dicionário de Suicidas Ilustres" que relaciona personagens reais e da ficção que chegaram às vias de fato (às vezes malogradamente). Sem querer fazer apologia, metodicamente ele vai resgatando os nomes desses que desistiram da vida. Descobrimos por exemplo que Ruy Apocalypse, poeta e cronista mineiro (1934-1967), radicado em São Paulo, era um boêmio inveterado, morava só, na Rua Conselheiro Nébias, e o isolamento da grande cidade o induziu ao alcoolismo descontrolado e crônico que lhe acarretou diversos problemas profissionais. Em uma madrugada, atirou-se debaixo de um ônibus.
Outro poeta que não resistiu à boemia e depressão foi o português Mário de Sá-Carneiro. Nasceu em 19 de maio de 1890 em Lisboa, e teve como grande amigo Fernando Pessoa. É copiosa sua correspondência que relata suas dificuldades emocionais. Aos "26 anos incompletos retornou a Paris, sofreu uma crise moral e financeira, abandonou os estudos, brigou com o pai e passou a levar a vida boêmia da cidade". Conta-se que uma noite, em desespero, vestiu um smoking, trancou-se no quarto do hotel, deitou-se e envenenou-se com uma dose titânica de arsênico. Antes de se matar, enviou poesias inéditas à Pessoa, publicadas depois em 1937 com o título "Indício de Oiro".

Da Rússia temos o exemplo de Wladimyr Maiakovski, nascido em 19 de julho de 1893 em Bagdadi, e suicida-se em 14 de abril de 1930, em Moscou. Viveu intensamente, escandalizou, foi verdadeiramente revolucionário, na poesia, teatro e até cinema. Matou-se após concluir seu poema "A Plenos Pulmões". Curiosamente a sua frase, é melhor morrer de vodca do que de tédio, pareceu ser adequada para um poeta e músico punk, John Simon Ritchie, mais conhecido como Sid Vicious da banda inglesa Sex Pistols. No dia 2 de fevereiro de 1979, aos 24 anos, escreveu o seguinte poema dedicado ao grande amor de sua vida, Nancy, que havia morrido de overdose – "Você era minha menininha/e eu conhecia seus medos/ tanta alegria tê-la em meus braços/ e beijar suas lágrimas/ Mas agora você foi embora/ Só ha dor/e não posso fazer nada/ não quero viver essa vida/ se não posso vive-la com você". E suicidou-se ingerindo uma overdose de cocaína com vodca.
No Rio de Janeiro, além dos cabarés da Lapa, pouco freqüentados, mas vizinhos de Manuel Bandeira, a boemia foi se espraiando por toda a orla. Os mineiros foram se chegando e agrupando-se. Cariocando-se, como querem alguns. Como já explicamos antes, ficando tudo assim como que mesclado. Afinal, escritores, cronistas e poetas acabavam incursionando também pela música popular. Como separar e rotular o nosso Antonio Maria ou Vinicius de Moraes. Se uns iam ao Clube da Chave outros visitavam a bossa nova no Beco das Garrafas. Tinha o "Corridinho" e também "O Fado". A casa portuguesa pululava de anti-salazaristas, mesmo todos acreditando que muitos dos portugueses eram da temida PIDE. Mas Tonny de Matos, sempre dava um jeitinho nas coisas e os brasileiros se aboletavam nas mesas para as vezes em petit comitê assistir um show exclusivíssimo de Amália Rodrigues. Os poetas e boêmios também adoravam o lugar por conta das apresentações de "desgarradas", improvisações ao som das guitarras portuguesas, um delicioso contraponto ao nosso repente. Certa noite o poeta Mario Lago estava por lá e frente a uma provocação (estava-se às vésperas da eleição de Jânio Quadros) resolveu também soltar a sua trova que saiu assim "Meu Brasil, país querido, teu destino é bem horrendo/ai-ai, oli, olá, teu destino é bem horrendo./Vai-se um doido varrido e vem um doido varrendo,/ai-ai, oli, olá, vem um doido varrendo". Pano rápido!
Daria para falar de muitos, fazer um manifesto. Mas no texto enxuto e preciso devemos citar outro que transitou ha tão pouco tempo, Julinho Barroso. Citamos duas curtas frases, como meteóricas memórias de suas andanças – " O poeta é o traficante da liberdade" e " Pra quem desce a nossa onda/Toda semana é de arte moderna".
Todos esses poetas velhos, novos, parnasianos ou modernos amavam sua poesia e a noite. Como o alemão Charles Bukowski que trocou de país e de língua para se transformar em um poeta vigoroso e que só chegou às nossas mãos (traduzido) graças ao empenho de outro poeta, esse pernambucano Jorge Wanderley. Jorge não pôde ver o livro impresso, mas a edição da Bertrand Brasil é uma homenagem justa a seu empenho. Na introdução do livro Márcia Cavendish Wanderley nos conta "... Bukowski defendeu intensa e ostensivamente sua marginalidade na vida e na obra. Aquele 'demonismo' que teve em Baudelaire sua mais momentosa voz foi bandeira desfraldada pelo poeta bêbado. Em Jorge ele também existiu, mas escondia-se sorrateiro sob suas sobrancelhas mefistofélicas carinhosamente cultivadas e acariciadas (...) e por isso traduziu tão bem Bukowski, a quem respeitava, sobretudo pelo seu desprezo em relação a toda e qualquer representação institucional da vida, por tudo que não fosse carne da alma".
não-fumante?', o funcionário
perguntou.
'bebedor', eu
respondi."
Charles Bukowski, in All the Casualties
Jorge
Wanderley, in Todas as Perdas (tradução)

