html> SUPLEMENTO CULTURAL
 

 

 
 

POETA É ALGO QUE MORRE MUITO

MELHOR MORRER DE VODKA

DO QUE DE TÉDIO


"Foi truculento, odiando a truculência
ficou sem voz, nas horas de discurso
Gastou-se em aparência
Disfarçando o urso."
Jorge Wanderley, in Coração à Parte
 

"E logo vai amanhecer
Os trabalhadores vão se levantar
e vão procurar por mim no estaleiro
e dirão:
'ele tá bêbado de novo' "
 

 

Charles Bukowski, in Quatro e meia da manhã
 

 
Se os poetas boêmios de todo mundo se dessem as mãos, não teria ninguém para abrir as garrafas. Nosso título foi tirado de um poema desesperado de Maiakovski e que poderia muito bem sintetizar o pensamento dos mais boêmios poetas. Eles poderiam ser do século dezessete, dezoito, do século passado. Russos, brasileiros, alemães. Pernambucanos que aportaram em São Paulo ou Rio de Janeiro. Gente de todos os estilos, mas com algo em comum, a boemia. E outra coincidência mais estilística, a de quase nunca povoarem seus textos com personagens positivos. Para não cair na mesmice e fugir da tentação de transcrever piadas de nossos boêmios como "ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire..." mas dar um pulinho a um dos grandes centros de boemia de São Paulo, A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.

 
CASTRO ALVES

 
Gente como Castro Alves estudou nas Arcadas Paulistas. Temos diversas historias sobre ele e a boemia, algumas inclusive já contadas nesse Suplemento.Uma história que se reveste do manto da especulação, maledicência ou até faz jus à mítica dos poetas românticos, é que Castro Alves em sua incursão pelo Braz, onde em um salto sobre uma vala desequilibra-se e dá um tiro no pé é incorreta e foi criada pelos amigos, para amainar um possível escândalo. Diz-se que, desgostoso com as relações com Eugênia Câmara, redirige suas energias para uma paulista de família burguesa. A mulher, por armadilha do destino, é casada com um comerciante português dono de uma chácara extensa que beirava até a famosa chácara do Tatuapé.O dito português flagra Castro Alves em sua propriedade. O poeta foge, mas, à beira de um riacho, acaba por levar um tirombaço no pé.O ferimento infecciona, pois a região possuía muitas charnecas pelas quais Alves precisa arrastar-se em busca de socorro. A tal chácara da Bresser existiu, assim como o riacho que desde o início do século está canalizado.A charneca está sobre metros de aterro, asfalto e concreto. Até os trilhos do Metrô correm sobre ela...

Mas que São Paulo era essa que o poeta freqüentava? Em carta ao Dr. Augusto Guimarães, de abril de 1868, dizia "Eis-me em São Paulo, na terra de Álvares de Azevedo, na bela cidade das névoas e das mantilhas, no solo que casa Heidelberg com a Andaluzia... Aqui há frio, porém frio da Sibéria; casas de Tebas; ruas, mas ruas de Cartago... casas que parecem feitas antes do mundo de tanto que são pretas, desertas, mas que parecem feitas depois do mundo de tanto que são desertas (...) escrevo-te, à noite. Faz frio de morte. Embalde estou embuçado no capote e esganado no cachenê". Existem outras versões deste texto, porém, todas concordam que sua conclusão era a mesma: "inclino-me a preferir São Paulo ao Recife."

 
ALVARES DE AZEVEDO

 
Álvares de Azevedo foi outro que deixou sua marca nas arcadas. Poeta, contista e ensaísta, nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 25 de abril de 1852. Em 1848 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi estudante aplicado e de cuja intensa vida literária participou ativamente, tendo fundado a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano. Entre seus contemporâneos, encontravam-se José Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães estes dois últimos suas maiores amizades em São Paulo, com os quais constituiu uma república de estudantes na Chácara dos Ingleses, era ali que nasceria grande parte de sua obra poética. O meio literário estava encharcado de byronianismo, e teria fornecido a Álvares de Azevedo componentes de melancolia, sobretudo a previsão da morte, que parece tê-lo acompanhado a vida toda.

 
FAGUNDES VARELLA
 

 
Eu passava na vida errante e vago
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago,

 
Já Luiz Nicolau Fagundes Varella nasceu em Rio Claro, Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1841 e faleceu em Niterói em 18 de fevereiro de 1875. Estudou também na Faculdade de Direito do Largo São Francisco na cidade de São Paulo, onde ainda se casou com uma prostituta. Dessa união, nasceu o filho primogênito, que veio a falecer com apenas três meses de vida. Mais amargurado que nunca, entregou-se totalmente à vida boêmia e ao álcool. Passou seus últimos anos de vida longe das grandes cidades, buscando refúgio na religião e no contato direto com a natureza e com pessoas simples da vida rural. A poesia que produziu nessa fase reveste-se de preocupação espiritual, apresentando caráter panteísta. O terceiro ano de direito fez na Faculdade de Direito em Olinda onde Castro Alves era primeiranista. Volta para São Paulo, mas desencantado da vida desiste de tudo, inclusive do curso. Sua obra poética, embora contivesse atitudes ultra-românticas, o pessimismo, a solidão e a morte, apontam rumos novos, que conduzem à geração seguinte de poetas. Conta-se que em 1861, teve aventuras ruidosas com uma "célebre mundana da Paulicéia", conhecida como Ritinha Sorocabana, cujo verdadeiro nome era Rita Maria Clementina de Oliveira. Logo após esse afair lançou o seu "Noturnas".

 
POETA É ALGO QUE MORRE MUITO
 

Desgraças à parte, nossos poetas românticos e boêmios eram dados a morrer de tuberculose, doença essa que grassava nas rodas da extravagância. Mas outros optaram por vias menos naturais e mataram-se. Em todos os tempos e todos os países isso vinha acontecendo, que o diga Goethe quando criou o seu jovem Werther. Que o diga os novos poetas (os neo-byronianos) góticos e outros tantos, em todas as épocas de nossa lira literária.

O escritor J.Toledo teve a ousadia de preparar o seu "Dicionário de Suicidas Ilustres" que relaciona personagens reais e da ficção que chegaram às vias de fato (às vezes malogradamente). Sem querer fazer apologia, metodicamente ele vai resgatando os nomes desses que desistiram da vida. Descobrimos por exemplo que Ruy Apocalypse, poeta e cronista mineiro (1934-1967), radicado em São Paulo, era um boêmio inveterado, morava só, na Rua Conselheiro Nébias, e o isolamento da grande cidade o induziu ao alcoolismo descontrolado e crônico que lhe acarretou diversos problemas profissionais. Em uma madrugada, atirou-se debaixo de um ônibus.

Outro poeta que não resistiu à boemia e depressão foi o português Mário de Sá-Carneiro. Nasceu em 19 de maio de 1890 em Lisboa, e teve como grande amigo Fernando Pessoa. É copiosa sua correspondência que relata suas dificuldades emocionais. Aos "26 anos incompletos retornou a Paris, sofreu uma crise moral e financeira, abandonou os estudos, brigou com o pai e passou a levar a vida boêmia da cidade". Conta-se que uma noite, em desespero, vestiu um smoking, trancou-se no quarto do hotel, deitou-se e envenenou-se com uma dose titânica de arsênico. Antes de se matar, enviou poesias inéditas à Pessoa, publicadas depois em 1937 com o título "Indício de Oiro".


Da Rússia temos o exemplo de Wladimyr Maiakovski, nascido em 19 de julho de 1893 em Bagdadi, e suicida-se em 14 de abril de 1930, em Moscou. Viveu intensamente, escandalizou, foi verdadeiramente revolucionário, na poesia, teatro e até cinema. Matou-se após concluir seu poema "A Plenos Pulmões". Curiosamente a sua frase, é melhor morrer de vodca do que de tédio, pareceu ser adequada para um poeta e músico punk, John Simon Ritchie, mais conhecido como Sid Vicious da banda inglesa Sex Pistols. No dia 2 de fevereiro de 1979, aos 24 anos, escreveu o seguinte poema dedicado ao grande amor de sua vida, Nancy, que havia morrido de overdose – "Você era minha menininha/e eu conhecia seus medos/ tanta alegria tê-la em meus braços/ e beijar suas lágrimas/ Mas agora você foi embora/ Só ha dor/e não posso fazer nada/ não quero viver essa vida/ se não posso vive-la com você". E suicidou-se ingerindo uma overdose de cocaína com vodca.

 
TAMBÉM SE VIVIA BEM

 
Os poetas boêmios que viveram no Rio de Janeiro e São Paulo, viveram pouco, mas intensamente. Em todas as épocas, misturaram-se com a fauna noturna onde pululavam compositores, atores, etc. Em São Paulo, por exemplo, na rua do Seminário próxima das Arcadas do Largo de São Francisco lá por 1922, os boêmios discutiam o fascismo e os movimentos populares. Popular era José Oiticica proparoxítonos da Letra do Hino Nacional, que deixam a criança mais atrapalhada do que o cego em tiroteio ou bode em canoa" . Ainda na memória boêmia de Lago encontramos o fascínio dos poetas e atores por Jacques Prévert. Anos mais tarde, já pelos sessenta e poucos o fascínio por Jean Genet (que teve uma fantástica biografia escrita por Edmund White ). Genet quando esteve no Brasil conheceu a noite de São Paulo, em especial a do Bairro do Bixiga (Bela Vista) onde ficava o teatro que apresentou sua peça "O Balcão".

No Rio de Janeiro, além dos cabarés da Lapa, pouco freqüentados, mas vizinhos de Manuel Bandeira, a boemia foi se espraiando por toda a orla. Os mineiros foram se chegando e agrupando-se. Cariocando-se, como querem alguns. Como já explicamos antes, ficando tudo assim como que mesclado. Afinal, escritores, cronistas e poetas acabavam incursionando também pela música popular. Como separar e rotular o nosso Antonio Maria ou Vinicius de Moraes. Se uns iam ao Clube da Chave outros visitavam a bossa nova no Beco das Garrafas. Tinha o "Corridinho" e também "O Fado". A casa portuguesa pululava de anti-salazaristas, mesmo todos acreditando que muitos dos portugueses eram da temida PIDE. Mas Tonny de Matos, sempre dava um jeitinho nas coisas e os brasileiros se aboletavam nas mesas para as vezes em petit comitê assistir um show exclusivíssimo de Amália Rodrigues. Os poetas e boêmios também adoravam o lugar por conta das apresentações de "desgarradas", improvisações ao som das guitarras portuguesas, um delicioso contraponto ao nosso repente. Certa noite o poeta Mario Lago estava por lá e frente a uma provocação (estava-se às vésperas da eleição de Jânio Quadros) resolveu também soltar a sua trova que saiu assim "Meu Brasil, país querido, teu destino é bem horrendo/ai-ai, oli, olá, teu destino é bem horrendo./Vai-se um doido varrido e vem um doido varrendo,/ai-ai, oli, olá, vem um doido varrendo". Pano rápido!

 
NOITES TROPICAIS

 
E nessa antropofágica noite tropical onde os personagens se aglutinam a lista se tornaria imensa e enfadonha. Quando acabamos de escrever Paulo Leminski, alguém nos socorre com Mario de Andrade, com Oswald de Andrade, mistura-se com uma pitada de angostura e tristeza desse coquetel a morte recente de Wally Salomão. Lembramos seu outro tão amigo que tão cedo se foi o piauiense Torquato, que soube como ninguém sintetizar essa boemia antropofágica e tropicalista que se tornou a noite (de todos os tempos) do Rio de Janeiro e de São Paulo, e que para os que desceram a ladeira da Sé em Olinda e bordejaram o rio, atravessaram a ponte e foram ao cais de Recife, sempre parece próxima porque nunca é distante dos livros e das rimas. Torquato que no saber de Augusto de Campos (ótimo tradutor de Maiakovski, diga-se de passagem) "agora você se mandou mesmo/pra não mais voltar/(deixe que os idiotas pensem que isto é poesia)..." e como ele mesmo escrevia "tudo o que eu quero/é uma questão de gosto:/um beijo, bolero/e pipoca moderna/mais o contraresto/menos nosso imposto/e cada vez mais perto/do porto."

Daria para falar de muitos, fazer um manifesto. Mas no texto enxuto e preciso devemos citar outro que transitou ha tão pouco tempo, Julinho Barroso. Citamos duas curtas frases, como meteóricas memórias de suas andanças – " O poeta é o traficante da liberdade" e " Pra quem desce a nossa onda/Toda semana é de arte moderna".

Todos esses poetas velhos, novos, parnasianos ou modernos amavam sua poesia e a noite. Como o alemão Charles Bukowski que trocou de país e de língua para se transformar em um poeta vigoroso e que só chegou às nossas mãos (traduzido) graças ao empenho de outro poeta, esse pernambucano Jorge Wanderley. Jorge não pôde ver o livro impresso, mas a edição da Bertrand Brasil é uma homenagem justa a seu empenho. Na introdução do livro Márcia Cavendish Wanderley nos conta "... Bukowski defendeu intensa e ostensivamente sua marginalidade na vida e na obra. Aquele 'demonismo' que teve em Baudelaire sua mais momentosa voz foi bandeira desfraldada pelo poeta bêbado. Em Jorge ele também existiu, mas escondia-se sorrateiro sob suas sobrancelhas mefistofélicas carinhosamente cultivadas e acariciadas (...) e por isso traduziu tão bem Bukowski, a quem respeitava, sobretudo pelo seu desprezo em relação a toda e qualquer representação institucional da vida, por tudo que não fosse carne da alma".
 
"'fumante ou
não-fumante?', o funcionário
perguntou.
'bebedor', eu
respondi."
Charles Bukowski, in All the Casualties

Jorge Wanderley, in Todas as Perdas (tradução)


 

Ensaio de Eduardo Cruz


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